Há um tempo falei de uma poesia que Fagner tinha musicado Fanatismo. Nesse momento eu disse que futuramente iria falar de outra poesia que ele não musicou, ele pegou um trecho e adaptou, que era a da música Canteiros.
Pois é, estamos hoje aqui para falar dessa música. Primeiro, é importante entender que, a música não é a poesia, na verdade, a primeira estrofe da música é uma adaptação da penúltima estrofe do poema Marcha, de Cecília Meireles. Vejam as estrofes:
Cecília:
Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentamento.
Fagner:
Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade
Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego
Já me dá contentamento
O resto da música nada mais tem a ver com ela (Cecília Meireles).
A última estrofe da música é parte de uma música de Belchior (também compositor Cearense, assim como Fagner), Na hora do almoço:
E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza ...
E deixemos de coisa, cuidemos da vida
Pois se não chega a morte
Ou coisa parecida
E nos arrasta moço
Sem ter visto a vida
E, às vezes, ele ainda finaliza com Águas de Março, de Tom Jobim:
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
São as águas de março fechando o verão
É promessa de vida em nosso coração.
Bem, a história que vi sobre essa música foi: em 1973, Fagner gravou a música Canteiros, até então creditada como sendo de sua autoria. Com poucas unidades vendidas, o disco não teve nenhum sucesso e foi tirado das prateleiras pouco tempo depois de lançado. Anos depois, quando Fagner estourou com outras músicas, os radialistas reviraram suas músicas passadas e reencontraram Canteiros. Mas antes da música estourar nacionalmente, ele já tinha dividido a parceria da letra com Cecília Meireles e inclusive divulgando-a em release de show, em 1977. Em 1979, Fagner admitiu, ao ser interrogado, que ''sem tirar a beleza dos versos, procurou fazer uma adaptação à música'', reconhecendo o uso indevido do poema Marcha, de Cecília Meireles, na composição de Canteiros. Em 1981, as herdeiras de Cecília Meireles conseguiram condenar várias gravadoras e o cantor a pagar uma multa de Cr$ 101 mil cruzeiros por violação de direitos autorais. Uma das gravadoras não quis fazer acordo e o processo ficou rolando até meados de 2000.
Ou seja, essa música é uma colcha de retalhos de grandes talentos nacionais, e tem sim uma parte escrita por Fagner, para que não desmereçam o mesmo. Fagner é um excelente artista e que não é o único que pega parte de música de outras pessoas quando acha que ela se encaixa perfeitamente na sua, como se fosse um complemento ou uma resposta àquele texto. Ele deveria sim ter dado o mérito da estrofe a Cecília Meireles e esse foi seu grande erro, já que depois ele assumiu e pagou sua parte. Muitas músicas usam partes de textos, mas, por citarem os escritores, acabam não tendo problemas judiciais e, como o povo não tem costume de ler no encarte de quem é a letra, nunca descobre que tem texto de outras pessoas ali. Esse incidente fez com que muita gente soubesse que é parte da poesia de Cecília Meireles, ou pior, acham que a poesia toda é dela. Isso não teria acontecido se tudo tivesse sido feito corretamente, muito provavelmente o povo não leria o encarte e acharia que a música era de Fagner e pronto, como sempre acontece.
E para finalizar, um apanhado das músicas e poesias citadas no texto.
Primeiro, Marcha, de Cecília Meireles:
Marcha
Cecília Meireles
As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a idéia do movimento.
Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.
Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.
Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.
Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentameno.
Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.
A música de Tom Jobim, Águas de Março, que muitas vezes finaliza Canteiros:
Águas de Março
Tom Jobim
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É pereba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumueira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é um tremendo desconto, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão,
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
pau, pedra, fim, caminho
resto, toco, pouco, sozinho
caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.
A música Hora do almoço de Belchior que é cantada na parte final de Canteiros:
Na Hora do Almoço
Belchior
No centro da sala,
diante da mesa,
no fundo do prato,
comida e tristeza.
A gente se olha,
se toca e se cala
E se desentende
no instante em que fala.
Cada um guarda mais o seu segredo,
sua mão fechada
sua boca aberta
seu peito deserto,
sua mão parada,
lacrada,
selada,
molhada de medo.
Pai na cabeceira: É hora do almoço.
Minha mãe me chama: É hora do almoço.
Minha irmã mais nova, negra cabeleira...
Minha avó me chama: É hora do almoço.
... E eu inda sou bem moço
pra tanta tristeza.
Deixemos de coisas,
cuidemos da vida,
senão chega a morte
ou coisa parecida,
e nos arrasta moço
sem ter visto a vida
ou coisa parecida aparecida
E, claro, Canteiros:
Canteiros
Fagner, Cecília Meireles e Belchior
Quando penso em você
Fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa
Menos a felicidade
Correm os meus dedos longos
Em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego
Já me dá contentamento
Pode ser até manhã
Sendo claro, feito o dia
Mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
(Refrão 2X)
Eu só queria ter do mato
Um gosto de framboesa
Pra correr entre os canteiros
E esconder minha tristeza
E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza ...
E deixemos de coisa, cuidemos da vida
Pois se não chega a morte
Ou coisa parecida
E nos arrasta moço
Sem ter visto a vida
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
São as águas de março fechando o verão
É promessa de vida em nosso coração.
Bjo a todos
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