Pessoal,
Venho a meses acompanhando, mesmo que de longe, a batalha de Marina nas diversas fases da seleção para fazer parte da escola de balé Bolshoi no Brasil.
Confesso que fiquei muito feliz em saber que ela tinha passado e, para minha surpresa, lembrei de muitos sentimentos que já tive ao longo da minha vida.
Para quem não sabe, eu comecei o balé clássico aos 4 anos de idade e amava dançar na sapatilha, tanto de meia-ponta quanto na de ponta. Meu sonho durante muitos anos foi ser bailarina, eu queria ir para o Bolshoi e poder viver dançando.
Infelizmente a gente cresce e muitas vezes nossa vida muda, nossos planos e sonhos acabam tendo que mudar junto com ela.
Quando eu morava em Niterói, eu estudava em uma excelente escola de dança (Helfany e Jane), que formava muitos bailarinos para o teatro municipal do Rio de Janeiro e para o mundo. Uma filha e um filho da dona e professora da academia dançavam no exterior na época. Então, naquele momento meu sonho era viável, possível.
Quando meus pais se mudaram para o interior do Ceará (Juazeiro do Norte) esse meu sonho não foi mais possível, tinha acabado. Lá, nem academia de balé tinha quando cheguei. Para quem amava o balé como eu, foi um baque. Um tempo depois, descobrimos um ex-bailarino lá (Magno), que estava trabalhando com roupas no momento. Com várias conversas entre minha mãe e ele, comigo metida no meio, surgiu a idéia de ele voltar a dançar e abrir uma academia lá. Isso aconteceu, e durante os anos seguintes pude voltar a dançar, mas para uma academia nova, a única aluna que tinha uma base era eu, então para evoluir e poder alcançar o sonho de ser bailarina era complicado, não existia turma para mim. Mesmo assim foi um momento maravilhoso, já que pude dançar muito, me apresentar, eventos, festas, jogos, virou uma febre.
Quando viemos para Campina Grande procurei uma academia de balé para poder tentar evoluir mais. Fiz por um tempo aulas na penúltima e na última turma que a academia tinha, mas percebi que, mesmo estando na turma mais avançada daquela academia, eu sentia falta de arriscar, de fazer giros mais difíceis, passos mais complexos.
Durante um tempo, além dessa academia, eu tive aulas particulares com um bailarino (Almir) de me exigia mais e me trazia mais desafios para o meu corpo. Nessa época eu fazia aula todos os dias e acredito que foi o máximo que consegui chegar no balé.
Com a chegada do científico e a escolha da profissão se aproximando, preferi abrir mão do meu sonho a ter que ir para o sudeste ou para o exterior atrás da profissionalização com apenas 14 anos. Na minha época não existia Bolshoi no Brasil e esse sonho só poderia ser realizado se minha base fosse muito forte para eu poder tentar vôos altos. Eu sabia que com todas as trocas de cidades e de academias, eu não estava boa o suficiente.
Esse foi o fim.
Marina me lembrou do meu sonho, espero que ela consiga seguir e realizá-lo, não só por ela, mas por todas que não puderam (como eu) por seus motivos e que agora se enxergam um pouquinho nela, vêem nela a bailarina que poderiam ter sido.
Desejo muita sorte e sei que agora é só brilhar, Parabéns.
Bom, sempre que me lembro da minha fase-balé, uma poesia e duas músicas me vêem a cabeça. A poesia é a de Cecília Meireles que foi lida no começo da minha primeira apresentação (com 4 anos):
A bailarina
Essa menina,
tão pequenina,
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré,
mas sabe ficar na ponta do pé;
não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá;
Não conhece nem lá nem si
mas fecha os olhos e sorri.
Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças
Uma das músicas é uma música infantil de Toquinho e Mutinho, que ficou muito conhecida cantada por Lucinha Lins e que eu cantava muito quando pequena e que expressava o que eu sentia, eu amaaaava essa música:
A bailarina
Um, dois, três e quatro,
Dobro a perna e dou um salto,
Viro e me viro ao revés
e se eu caio conto até dez.
Depois, essa lenga-lenga
Toda recomeça.
Puxa vida, ora essa!
Vivo na ponta dos pés.
Quando sou criança
Viro orgulho da família:
Giro em meia ponta
Sobre minha sapatilha.
Quando sou brinquedo
Me dão corda sem parar.
Se a corda não acaba
Eu não paro de dançar.
Sem querer esnobar
Sei bem fazer um grand écart.
E pra um bom salto acontecer
Me abaixo num demi plié.
Sinto de repente
Uma sensação de orgulho
Se ao contrário de um mergulho
Pulo no ar num gran jeté.
Quando estou num palco
Entre luzes a brilhar,
Eu me sinto um pássaro
A voar, voar, voar.
Toda bailarina pela vida vai levar
Sua doce sina de dançar, dançar, dançar...
E por último, uma música que também amo de Chico Buarque e Edu Lobo, criada em 1982 para uma peça chamada O Grande Circo Místico. Para mim, ela representa a perfeição da bailarina.
A bailarina é vista como um ser sobre-humano, sem defeitos ou falhas de comportamento. A imagem do ser flutuando no palco, com um corpo que aparenta tão leve que voa, com movimentos tão livres e precisos, tão difíceis e belos, o extremo da perfeição atingida por pouquíssimos tipos de dança. Com isso é feita a brincadeira do ser perfeito (a bailarina), como se na cabeça de muitos, principalmente crianças (já que essa música é muito cantada pra crianças também) a bailarina fosse um bibelô, uma fada. Sou suspeita, né? Balé e Chico juntos kkkkk
Coloquei uma versão com Adriana Calcanhoto, mais doce :)
Ciranda da Bailarina
Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem
Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem
Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem
Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem
O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem
Procurando bem
Todo mundo tem...
Bjos a todos
Ola Renata,
ResponderExcluirLegal esse seu texto. Nunca imaginei que voce fosse uma quase profissional de dança, parabens!
Mas eu soh gostaria que voce publicasse um link ou qualquer coisa dessa Marina, para os ignorantes de bale (assim como eu). Fiquei curioso sobre a historia dela... E procurando no sobre Marina e bolshoi no google soh vem coisas nada a ver.
Ate mais
Olá Neto, Obrigada.
ResponderExcluirSe mais dela porque a conheço e conheço a mãe dela aí acompanho muito pelo orkut e pelo blog, mas saíram duas reportagens sobre ela nos jornais locais: http://www.youtube.com/watch?v=XIzRezfLYYw e http://www.youtube.com/watch?v=yjLqOxn42HU&feature=player_embedded